A pulso, o parque hortícola da Horta Nova vai avançar

26 de Novembro de 2019
A pulso, o parque hortícola da Horta Nova vai avançar

Há meses que esperam pelas prometidas obras de requalificação dos terrenos onde têm plantado frutas, vegetais e, sobretudo, esperança. Desde 2017 que os moradores da Horta Nova aguardam pelo parque hortícola que a Câmara Municipal de Lisboa assumiu construir e que, agora, pode estar mais próximo de se erguer. Tudo porque os moradores, unidos, fizeram ouvir as suas vontades e desânimos perante a espera que se tem feito longa, numa das últimas reuniões de Câmara.

Foi em 2013 que os moradores da Horta Nova “invadiram” os terrenos que, até então, pertenciam à EPUL (Empresa Pública de Urbanização de Lisboa). Ali, cuidaram do solo e permitiram que nele nascessem hortas para a comunidade. Um espaço que, em 2017, viu apresentado à CML um projecto para a sua requalificação. Em março do ano passado, a CML pediu aos moradores que apenas cultivassem até Agosto — altura em que se iniciariam as obras.

Mudaram-se as previsões e, a empreitada que devia ter tomado lugar em 2018, estava prevista para o segundo trimestre de 2019. Mas nada aconteceu.

Aos 57 anos, o trabalho ainda leva a maior parte dos dias a Raquel. Um acumular de stress e preocupações que se desvanece quando o sol se começa a pôr. “Quando saio daqui vou mais aliviada. Sempre poupo em medicamentos para o stress”, conta. Um hábito terapêutico e que, em seis anos, nunca foi em vão. “Tudo o que plantámos, nasceu. Houve sempre o que colher”, confessa Raquel, uma das moradoras da Horta Nova que descobriu, no seio do bairro, um solo fértil e propenso à cultura de frutas e vegetais. Nas hortas há de tudo: “couves, alfaces, chuchus e, este ano, até o pessegueiro deu pêssegos!”

As hortas comunitárias têm sido um apoio fundamental às famílias que, no auge da crise económica em Portugal, viram nelas mais do que um simples sustento. “Têm dado muito jeito de várias formas. Ajuda a ter mais qualquer coisa para comer e, depois, sempre nos permite distrair um pouco da vida que, muitas vezes, não é fácil”, confessa Raquel.

Foi num terreno sem rumo, circundado pelos prédios da Horta Nova, que os moradores começaram a semear as suas culturas. O enquadramento dos edifícios, confina às hortas ventos que, por vezes, se tornam mais fortes que as próprias vedações. “Isto é mais para delimitar os terrenos do que para proteger as hortas. Quem quer entrar, salta as cercas na mesma.” E saltam mesmo. Para Raquel, é fácil lembrar-se das manhãs em que chegou à horta e, das suas alfaces, nada restou. “Com as obras íamos poder plantar à vontade. Já não havia quem conseguisse roubar-nos as enxadas ou as mangueiras se tivéssemos uma casinha para as guardar”, admite, preocupada, a moradora.

No centro do Bairro continua a plantar-se, mesmo sem saber se haverá oportunidade de ver crescer o que se semeou, pela incerteza do início das obras. Uma sensação ambígua para os moradores da Horta Nova que, por um lado, querem colher o que semearam, mas que, por outro, anseiam pela requalificação dos solos que mantêm vivos.

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